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  O Sentido da Vida
 

 
  
A Filosofia
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 O HOMEM E A CIÊNCIA

A CIÊNCIA E O SENTIDO DA VIDA


VISÃO CIENTÍFICA DA VIDA
Ciência e sentido da vida

A ciência contraria a visão antiga do homem como ser criado por Deus, com um lugar à parte e privilegiado na criação. Para a ciência somos descendentes das bactérias e, mais directamente, de símios. Muitos dos nossos genes são comuns a animais como o rato ou mesmo a mosca.


Todos os seres orgânicos que vivem sobre a Terra, descendem provavelmente de uma única forma primordial, na qual a vida foi insuflada pela primeira vez.
Charles Darwin, 1809-1882, naturalista inglês, A Origem das Espécies.


O ascendente directo do homem é provavelmente um quadrúpede peludo, com cauda e orelhas pontiagudas, eventualmente vivendo em árvores.
Charles Darwin, 1809-1882, naturalista inglês, The Descent of Man 


Da guerra da natureza, da fome e da morte, advém directamente o mais elevado objectivo que podemos conceber, nomeadamente a produção de animais mais perfeitos.
Charles Darwin, 1809-1882, naturalista inglês, The Descent of Man 


O homem, com todas as suas nobres qualidades… ainda conserva na sua estrutura corporal o selo indesmentível das suas baixas origens.
Charles Darwin, 1809-1882, naturalista inglês, The Descent of Man 


Que livro poderia o secretário do diabo escrever sobre a imperfeição, os desperdícios e os disparatados, baixos e horrivelmente cruéis trabalhos da natureza.
Charles Darwin, 1809-1882, naturalista inglês, Correspondence of Charles Darwin 


A selecção natural é um relojoeiro cego; cego porque não antecipa, não planeia consequências, não tem um fim em vista, embora os seus resultados nos impressionem vivamente e pareçam ser a de um mestre relojoeiro, envolvendo design e planeamento.
Richard Dawkins, sociobiólogo inglês, The Blind Watchmaker


Somos máquinas de sobrevivência - veículos robotizados cegamente programados de modo a  preservarmos as moléculas egoístas a que chamamos genes. Essa é a verdade que me enche de espanto.
Richard Dawkins, sociobiólogo inglês, The Selfish Gene


Dentro de cada um de nós há um trilião de cópias de um enorme documento escrito num código digital e preciso, sendo cada uma dessas cópias tão real quanto um livro de verdade. Estou a falar, claro está, do DNA das nossas células. 
Richard Dawkins, sociobiólogo inglês, em The Richard Dimbleby Lecture: Science, Delusion and the Appetite for Wonder


Eles estão em si e em mim; eles criaram-nos, corpo e mente; e a sua preservação é o fim último da nossa existência racional… Eles dão pelo nome de genes, e eles são as nossas máquinas de sobrevivência.
Richard Dawkins, sociobiólogo inglês, The Selfish Gene


Não há qualquer força espiritual guiando-nos, palpitando, pesando, pululando, protoplásmica, qual geleia mística. A vida é apenas bytes, bytes, e bytes, ou informação digital.
Richard Dawkins, sociobiólogo inglês, River out of Eden 


Comentário
O nosso lugar nas cadeias da vida

 

CIÊNCIA E VISÃO TRADICIONAL DO HOMEM E DA VIDA
Ciência e sentido da vida

A visão científica do homem gerou reacções de repúdio e contra-reacções. Os criacionistas, no essencial, recusam a visão científica da vida, e nomeadamente o darwinismo. A ciência contraria a religião. O homem deixou de estar no centro da criação e do mundo, tal como a Terra deixou de estar no centro do Universo e dos desígnios de Deus. A ciência revela-nos que o homem poderia nunca ter existido, e que é o produto de uma lógica cega. Mesmo os que não recusam a visão científica, concordam que a visão da ciência é incómoda e fica aquém dos nossos sonhos.


Os seres humanos não podem viver com a revelação da ciência. A ciência roubou-nos a nossa religião. A raça humana era o desígnio, o coração, a causa final de todo o sistema. A nossa religião colocava os nossos eus, definitivamente, no mapa universal. (…) A ciência diz-nos que os homens poderiam nunca ter existido, e que nada teria mudado, no Universo.
Bryan Appleyard, jornalista e escritor inglês, Understanding the Present  

 
Se é ilusão ser a essência humana algo venerável e digno, então deixem-me viver e morrer nessa ilusão, e não se esforcem por me abrir os olhos de modo a que veja a minha espécie sob uma luz humilhante e repulsiva.
Thomas Reid, 1710-1796, filósofo escocês, Carta 1775 , em Philosophical Works, William Hamilton


Qualquer homem de bem sente crescer a sua indignação contra aqueles que desacreditam os seus parentes ou o seu país; por que não há-de essa indignação crescer contra aqueles que desacreditam o homem?
Thomas Reid, 1710-1796, filósofo escocês, Carta 1775 , em Philosophical Works, William Hamilton



EM DEFESA DA CIÊNCIA
Ciência e sentido da vida

Numa primeira etapa a janela aberta pela ciência faz-nos tremer, ao nos retirar o calor que vem dos tradicionais mitos humanos, mas depois o ar fresco traz-nos vigor, e os grandes espaços têm um esplendor muito próprio.
Bertrand Russel, 1872-1970, filósofo e matemático inglês, What I Believe 


Tentemos compreender o que são os nossos genes egoístas, porque nesse caso podemos ao menos ter a hipótese de alterar os seus desígnios, algo a que nenhuma outra espécie aspirou.
Richard Dawkins, sociobiólogo inglês, The Selfish Gene


A função da ciência consiste em fornecer uma representação do mundo, dos seres e das coisas, que nos liberte, tanto quanto possível, das ilusões que a natureza dos nossos sentidos e do nosso cérebro nos impõe.
F. Jacob, biólogo francês, O ratinho, a mosca e o homem; edição portuguesa: Gradiva


A ciência oferece o privilégio de percebermos a nossa condição e porque aparecemos na Terra.
Richard Dawkins, sociobiólogo inglês, Entrevista ao Canal 4 inglês, 15/8/1994
 

Comentário - Ciência e Sentido da Vida

Ver também:
O Homem e o Universo
Os seres Humanos - Condição Humana
Pensamento Existencial
A Vida tem Sentido?


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Ciência e sentido da vida

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AS REVELAÇÕES DA CIÊNCIA


     

Acima:
Espiral ADN
(Nasa)

Comentário
O nosso lugar nas cadeias da vida


«A Terra é a nossa Mãe, e nós os seus filhos», diz um velho provérbio hindu. «O homem não teceu a rede da vida - ele é um simples fio nesse rede», disse o emblemático chefe Seattle. No fundo de nós há consciência dos nossos laços à restante vida animal, mesmo quando por vezes o negamos e nos colocamos num plano superior.

Bem no fundo de nós, não gostamos de ser animais, ou de sermos meramente um animal. Sobretudo, não gostamos de ideia de sermos parentes próximos dos símios, ou descendentes de insignificantes bactérias, tal como não gostamos que a Terra e nós próprios não estejamos no centro do Universo e dos desígnios de Deus..

Por isso, digerimos mal as revelações da ciência. As reacções de repúdio sobre as nossas origens e o nosso parentesco aos símios e à restante vida animal, têm-se vindo a suceder, desde os tempos de Darwin.

Não foi por acaso que Darwin adiou durante anos a sua Origem da Espécies. Ele adivinhava as reacções que esperavam a sua obra. As ideias presentes no seu livro contrariavam a sua crença religiosa profunda, e só a sua honestidade intelectual o levou a não desistir. Não é por acaso que ainda hoje, um pouco por todo o mundo e muito particularmente nos EUA, os criacionistas têm tanto apoio, e as ideias de Darwin são tão contestadas.

A ciência veio pôr em causa a visão tradicional do homem. Com as revelações da ciência o homem deixou de beneficiar de um estatuto especial na criação e no Universo, para passar a ser apenas um produto trivial de um «relojoeiro cego», para usar a metáfora de Richard Dawkins. Passámos a ser «máquinas de sobrevivência - veículos robotizados cegamente programados de modo a  preservarmos as moléculas egoístas a que chamamos genes»…

Podemos, obviamente, contestar certas interpretações e leituras científicas. Podemos, por exemplo, achar que não somos meras «máquinas de sobrevivência», no sentido mais literal do termo, como aliás Dawkins admite, ao considerar que nascemos egoístas mas que podemos ensinar a nós mesmos «generosidade e altruísmo». Que pela compreensão do que somos e do papel dos genes em nós temos uma hipótese «contrariar os desígnios genéticos, algo a que nenhuma outra espécie aspirou.»

Mas será que podemos ou temos legitimidade em recusar a parte mais factual e documentada da ciência? Terá alguma legitimidade reacções como a de Thomas Reid, um destacado filósofo escocês do XVIII, quando ele afirmou: «Se é ilusão ser a essência humana algo venerável e digno, então deixem-me viver e morrer nessa ilusão, e não se esforcem por me abrir os olhos de modo a que veja a minha espécie sob uma luz humilhante e repulsiva»?

Se quisermos ser honestos para connosco mesmo, e abraçar a verdade, a nossa resposta só pode ser uma: não. Não temos o direito de negar os factos e ilações cientificamente sustentadas.

Uma parte de nós tende a negar a realidade. «O homem sempre lutou com todas as suas forças contra a realidade (Jean Servier). A crueldade da vida incita-nos ao sonho e à fantasia. A morte e a dor, sempre presentes ou sempre rondando, são um convite à evasão. E podemos aceitar e desculpabilizar essa nossa faceta… Faz parte das nossas fraquezas.

Mas não podemos ou devemos viver de quimeras, ilusões e sonhos, ou de ultrapassadas noções de honra, como as defendidas por Reid. Não temos que ter vergonha das nossas baixas e humildes origens. Não são elas que nos desprestigiam.

O que nos pode despromover e rebaixar, não são as origens e o nosso papel insignificante a nível do Universo revelado pela ciência, mas sim os nossos actos. O que nos pode despromover é a nossa recusa em aceitarmos a verdade, é a cobardia intelectual que leva a que aceitemos e alimentemos o mito e a inverdade.

A nossa dignidade passa pelo nosso pensamento. Passa pela nossa capacidade em descobrir, aceitar e respeitar a verdade, em nos elevarmos por via da nossa inteligência, em irmos para além das ilusões ditadas pelos nossos sentidos e em contrariar a nossa atracção por trivialidades. Está na verdade, por muito que ela quebre os nossos sonhos de imortalidade e grandeza. Não pode estar na negação da realidade.

Se queremos que a dignidade que os pensadores clássicos nos atribuíam, baseados na nossa racionalidade, tenha algum significado, não podemos negar essa mesma racionalidade, recusando as evidências e as provas científicas sobre as nossas origens e o nosso papel no Universo. «A nossa insignificância de animais humanos, não pode injuriar a consciência da nossa dignidade de homens racionais», considerou Kant, talvez de forma empolada. Será bom, de qualquer modo, que não rejeitemos tal dignidade de forma grosseira, mergulhando em versões míticas do homem.

 

 

 

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